Servidor do BC intermediou venda do Master ao Nubank, diz PF

A Polícia Federal obteve diálogos que indicam a atuação de um servidor do Banco Central para auxiliar o banqueiro Daniel Vorcaro a vender um braço do Banco Master para o Nubank. A informação faz parte da investigação sobre a cooptação de dois funcionários da autarquia. O Banco Central não se manifestou sobre o caso.
O negócio não foi concretizado e a PF não aponta suspeitas de irregularidades do Nubank. Em nota, o Nubank afirmou que declinou a proposta de aquisição do Letsbank, que pertence ao grupo de Vorcaro. A empresa disse que recebe regularmente propostas de diversas instituições e que a maioria não avança além das etapas iniciais de análise.
Belline Santana e Paulo Sérgio Souza, ex-chefe e ex-chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, foram alvos da terceira fase da Operação Compliance Zero. Eles foram afastados das funções por suspeita de receber propina de Vorcaro em troca de informações internas sobre a fiscalização do Master. Ambos negam os atos ilícitos.
Segundo apuração do Banco Central, Paulo Sérgio é suspeito de receber cerca de R$ 8 milhões do Master. Belline teria recebido pelo menos R$ 4 milhões.
Os diálogos obtidos pelo Estadão indicam que Paulo Sérgio também teria usado sua influência para intermediar a venda do Letsbank para outros bancos privados. Na época das conversas, ele era subordinado à diretoria de Fiscalização do BC.
O Letsbank era um banco vinculado ao Master que operava no mercado financeiro e de câmbio. Foi adquirido por Vorcaro e tinha o nome original de Voiter.
Em relatório sigiloso, a PF afirma que as conversas mostram que Paulo Sérgio atuava em defesa dos negócios do banqueiro, conduta incompatível com sua função.
A defesa de Paulo Sérgio afirmou que a atuação dele foi solicitada pelo diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino. A defesa disse que a intermediação foi um procedimento normal e de conhecimento da Diretoria. Ailton não se manifestou.
Em outubro de 2024, Paulo Sérgio escreveu a Vorcaro sobre o interesse do Nubank no Letsbank. Vorcaro disse que conversou com o CEO do Nubank, David Vélez, mas que as negociações travaram. Paulo Sérgio respondeu que acreditava ser possível ajudar e que o Nubank estava interessado no Letsbank como opção para licença bancária.
No dia seguinte, Paulo Sérgio retornou com condições das tratativas, citando um limite de R$ 5 bilhões na plataforma. Vorcaro respondeu de forma positiva.
O Nubank buscava ampliar sua atuação no mercado e conseguir licença bancária no Brasil após norma que proibiu instituições sem autorização de usar termos como “banco” em seus nomes.
A negociação com o Nubank não avançou. Em julho deste ano, o Nubank anunciou a compra do Banco Porto Real de Investimentos S/A.
Vorcaro tentou vender o Letsbank para Maurício Quadrado, ex-sócio, mas o Banco Central vetou o negócio em setembro de 2025 por suspeitas sobre a origem dos recursos. Pouco depois, o Letsbank foi liquidado em conjunto com o Master.
A defesa de Belline disse que o cliente não cometeu irregularidades nem recebeu benefícios de Daniel Vorcaro. Os advogados afirmaram que Belline espera um julgamento justo e está à disposição da Polícia Federal.