Angela Davis: Supremacistas saíram do armário
Angela Davis, escritora e ativista conhecida por sua luta pelos direitos civis e pelo feminismo, afirmou que os supremacistas brancos nos Estados Unidos não estão em ascensão, mas sim “apenas saíram do armário”. A declaração foi dada em entrevista durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, onde participa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Davis está no Brasil pela décima vez.
Para a ativista, a volta de Donald Trump à presidência não representa a vontade da maioria da população americana. Ela argumenta que as estatísticas mostram que apenas um terço do país apoia o governo atual. “Dizer que o presidente representa a grande maioria das pessoas no país é falso”, disse. Ela atribuiu a reeleição de Trump à abstenção eleitoral de muitos cidadãos.
Davis também comentou sobre a luta pela causa palestina. Ela afirmou que a tentativa de equiparar a solidariedade aos palestinos com o antissemitismo é uma tática usada por conservadores. A ativista disse que pesquisas nos EUA indicam que a maioria da população agora se inclina mais para a solidariedade palestina, algo que ela considera lamentável que tenha sido necessário “a destruição genocida de Gaza” para que essa nova sensibilidade política surgisse.
Justiça transformativa e abolição das prisões
Defensora do fim do sistema carcerário, Davis respondeu a críticas de que a abolição das prisões minimizaria o sofrimento das vítimas de crimes violentos. Ela explicou que a justiça transformativa busca atender as necessidades da vítima e também analisar como a sociedade gera as condições que levam à violência. “A base é o racismo estrutural”, afirmou sobre o uso de tecnologias como reconhecimento facial e algoritmos preditivos na segurança pública.
A ativista criticou a falta de oportunidades para presos antes da condenação. Ela citou o exemplo de um grupo de leitura em uma prisão de segurança máxima nos EUA, onde homens negros e latinos condenados à prisão perpétua liam obras do intelectual francês Michel Foucault. “Se ao menos eles tivessem reconhecido antes que esse tipo de experiência era possível, não estariam lá. Foi emocionante e muito, muito triste”, disse.
Movimento progressista e organização política
Questionada sobre a maior fraqueza do movimento progressista atual, Davis afirmou que a falta de organização é o principal problema. “Não estamos organizados da forma que deveríamos. As possibilidades estão aí, mas não encontramos as formas organizacionais que nos permitirão dar expressão a esses sentimentos políticos”, declarou.
Ela também comentou sobre o avanço de partidos conservadores entre trabalhadores e minorias. Para Davis, a esquerda ainda busca novas formações políticas, mas a concentração de riqueza nas mãos de bilionários, em um nível nunca visto na história, dificulta a transformação estrutural da sociedade.